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RELEITURAS DE UM CRISTIANISMO
Por Vinicius O. S. Guimarães*
"quem achar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á".
Mt. 10:39
A vida é uma obra em constante mutação, e não poucas vezes tais metamorfoses se infiltram nos recônditos religiosos e produzem mudanças imperceptíveis no momento, mas que invariavelmente são notórias quando se senta num banco qualquer e simplesmente se assisti as vivências. O presente cristianismo estampando na cristandade pós-moderna é o reflexo de um passado embebido em esperanças que por vezes se desfaleceram sobre o balcão do comércio da religiosidade. Ali, exposto da forma mais vulnerável possível, o cristianismo se tornou um mero objeto de desconstrução da religião e agregou valores antagônicos que supervalorizam o bem-estar humano como conseqüência do sacrifico salvífico de Cristo na cruz do Calvário.
Neste cenário onde as desconstruções redefinem as rotinas percebe-se a felicidade humana ocupando um lugar central no então (pseudo)cristianismo pós-moderno. Não é difícil ouvir em pregações a sentença: "Jesus morreu na cruz para te fazer feliz!". Entretanto, não existe uma frase menos cristã do que esta, pois indubitavelmente Cristo morreu na cruz para salvar o homem, não necessariamente para fazê-lo feliz. Contudo, é evidente que felicidade e salvação podem perfeitamente andar juntas, porém não se pode reduzir a cruz de Cristo em um ato para se saciar os dissabores do ser humano. A causa que levou Cristo a enfrentar a vergonha da cruz não foi inicialmente para que as pessoas tenham sorrisos nos lábios, mas principalmente para que elas não pereçam a eternidade no inferno.
O cristianismo que se vê pintado nos vitrais da vida cristã hodierna é um coquetel perigoso de definições e ações onde se confunde cristianismo com filosofia (leia-se pensadores). Há um grande número de cristão que gastam suas vidas para ficarem debatendo sobre questões supérfluas da cristandade e que de contra partida não conseguem viver na prática as questões mais básicas da fé cristã. São bons pensadores que infelizmente se esqueceram que cristianismo também é ação e cotidiano. Ao que parece para estes o cristianismo se tornou um objeto de estudo e não um estilo de vida. A filosofia (pensar) e cristianismo (viver) são duas essências que devem caminhar de mãos dadas para que não se tenha uma religiosidade atrofiada.
O estilo de vida que a sociedade capitalista impõe sobre seus adeptos forçam os indivíduos religiosos a se refugiarem na boa e velha estória de ativismo, que ainda continua sendo uma das melhores falácias para se fazer nada em favor do cristianismo. Um número considerável de pessoas que congregam nas igrejas evangélicas insiste em dizer que há um grande ativismo nas práticas religiosas, mas estes que pensam assim são exatamente os mesmos que só vão no domingo a noite para o culto (quando vão) e qualquer outra coisa fora desta rotina se escondem por detrás da palavrinha "ativismo". Estes lutam para não caírem no ativismo religioso, entretanto não acham ativismo gastar horas em atividades esportivas, ou mesmo gastar muito tempo com entretenimentos e atividades de auto-realização. Sem dúvida o ativismo religioso é um grande erro, mas negligência e ausência cristã também o é. Sendo assim nesta caminhada de desconstrução da cristandade se constroem um cristianismo como mera fé contemplativa e exclusivista.
Outro imenso equivoco facilmente perceptível nesta mutação da fé cristã na atualidade é o fato de vislumbrar um Deus que existe apenas para causas impossíveis. Inúmeras vezes os pregadores insistem em afirmar: "Deus não vai fazer o que você pode fazer, Ele fará somente aquilo que você não consegue fazer". Contudo, tal afirmação está definitivamente incompleta em si mesma e pior, quase sempre constrói um Deus que só trabalha no âmbito dos impossíveis e do sobrenatural. Desta maneira desconfigura-se a relação entre Deus e a humanidade, pois sendo assim o elo de ligação entre Deus e homem se torna estritamente as causas impossíveis, se esquecendo que Deus é o Senhor da história (cotidiano), não apenas uma válvula de escape para os momentos que requerem ações metafísicas (impossíveis). Ao que parece aos poucos a humanidade (religiosos) tem tirado Deus do dia-a-dia, do simples, do cotidiano, criando um assim um Deus impessoal.
O entendimento acerca do que é igreja é outro fator agravante no cenário do cristianismo pós-moderno, pois facilmente se entende "igreja" como Reino de Deus, "igreja" como denominação e "igreja" como templo, porém ainda se está demasiadamente distante do entendimento que "igreja" é também sinônimo de cristianismo. Talvez este seja o motivo do porque as ações sociais cristãs estão tão restritas ao ambiente religioso. Simplesmente se esquecem que a igreja (cristãos) tem que ser uma resposta as aflições e as mazelas do mundo. Entender "igreja" como cristianismo é viver de modo a extrapolar as quatro paredes (templo), é supera as exigências sacerdotais da denominação e mergulhar na espontaneidade do serviço a Deus, é perceber que antes de ser uma instituição religiosa a igreja é uma instituição social. Cada cristão deve ser um pedaço ambulante da igreja, principalmente quando não se está no ambiente religioso.
Este processo de desconstrução do cristianismo pode ser visto muito facilmente na atualidade, pois a fé começou a ser usada como palanque para exposição do ego humano, e se tornou a bandeira do exibicionismo antropológico. Infelizmente, neste cenário caótico do ser cristão muitos não querem se esconder por detrás da cruz para que tão somente Ele (Jesus) seja exaltado, engrandecido e reverenciado. Infelizmente, muitos têm preferido os aplausos da multidão e as serestas de elogio e bajulação. Nesta luta pelo poder e fama evangelical muitos tem se esquecido que o máximo que alguém poderá ser no cristianismo é servo, pela misericórdia de Deus poderá ser chamado de amigo do Carpinteiro e por adoção poderá ser aceito como filho dAquele que é a essência do próprio amor.
Portanto, ao fazer esta releitura do cristianismo pós-moderno em contraste com o cristianismo de Jesus Cristo e postulando em defesa da fé cristã faz-se necessário ratificar os seguintes aspectos: o sacrifício na cruz foi para que a humanidade não apenas se limitasse em ser feliz, mas para que suficientemente pudesse salvá-los da condenação eterna. Ser cristão é demonstrar em obras a fé tão insistentemente discutida e defendida pelos amantes da Palavra de Deus. No cristianismo não adianta encobrir a ausência com palavras de defesa contra o utópico ativismo, pois no final das contas ambos estão igualmente errados. Na cristandade habita um Deus que é imanente e transcendente, age tanto nas pequenas coisas da vida quanto nas causas impossíveis. O cristianismo não pode ser entendido como simplesmente um passaporte para o céu, mas sim um meio para se realizar no cotidiano a vontade de Deus, isto é ser igreja, isto é cristianismo. Enfim, ser cristão é entender que Ele é o Senhor absoluto, e os cristãos servos em gratidão.
"mas em nada tenho a minha vida como preciosa para mim,
contando que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus,
para dar testemunho do evangelho da graça de Deus".
At. 20:24.
Que Deus nos ajude!
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*Vinicius O. S. Guimarães (vinicius@tocandoasnacoes.com) é natural de Goiânia - Goiás - Brasil, casado com Priscilla Dayana A. B. Guimarães. Escritor dos livros "Conversão - uma mudança de vida", "A Bíblia fazendo história", "Lições do Maestro" e "Pescadores de Vidas". Bacharel em Teologia com concentração em Missiologia pelo Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro (STEBB), bacharel em Administração Geral pela Universidade Católica de Goiás (UCG), especialista em Estudo da Bíblia pela Faculdade Evangélica de Teologia de Belo Horizonte (FATE-BH), especializando em Docência Universitária pela Faculdade de Goiás (FAGO), mestre em Ministério com concentração em liderança pela Faculdade de Teologia Evangélica da Igreja de Deus (FATEID). Colaborador da Revista Linha Aberta (Florida - USA), membro da Associação de Professores de Missões do Brasil (APMB), presidente da Missão Tocando as Nações (MTN) e pastor da Comunidade da Fé (COFE) em Goiânia. Atualmente leciona na Faculdade de Teologia Evangélica da Igreja de Deus (FATEID), no Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro (STEBB) e no Instituto Unificado de Ensino Superior OBJETIVO.